O Quebra-nozes

Janeiro 2, 2008 por Walder

Apesar de ter ido à bilheteria do Teatro Municipal no mesmo dia em que li o anúncio no jornal, praticamente todos os ingressos da primeira semana estavam vendidos. E mesmo tendo prometido aos meus amigos que iríamos no dia 15 (sábado) às 17 horas, por ser um horário mais apropriado para agenda de todos, não valeria a pena comprar as cadeiras laterais. Lembrei-me, com muito desprazer, do dia em que fui assistir Momix com uma amiga. Víamos apenas corpos em uma performance que sabíamos produzir um efeito belíssimo para aqueles afortunados que estivessem de frente para o palco.

Como eu estava com muita pressa, acabei decidindo comprar para a semana seguinte da estréia. Como o dia 15 estava lotado, calculei mais 7 dias e, rapidamente, comprei para o dia 21. Após pagar pelos ingressos, fui conferir para ver se estavam corretos. Senti um frio na espinha quando vi o horário de 20h gravado no ingresso. Como pude errar um cálculo tão simples?! Mas não tinha como voltar atrás. O bom é que meus amigos não se importaram com a mudança da data.

Chega o dia da apresentação. Lá estávamos nós, em frente ao Municipal. Entramos logo e fomos para os nossos lugares. Tal qual foi minha surpresa! Os lugares eram de frente para o palco, apesar de estarem na penúltima fileira. Porém, o teto era baixo demais, o que impedia a visão da parte de cima do cenário. Até dava pra relevar porque o principal mesmo eram os bailarinos e a música.

Ficamos sentados, esperando o início da obra. O calor incomodava muito, principalmente porque, com o teto baixo, as lâmpadas estavam muito próximas de nós. Houve uma demora de 15 minutos para que, finalmente, apagassem as luzes. Ouvimos os primeiros acordes e as cortinas foram retiradas. O calor ainda incomodava.

Após 30 minutos, os ingressos viraram um leque um pouco eficiente. E o pescoço começava a doer por causa do ângulo de visão.

Na hora do intervalo eu corri para comprar o programa. Precisava muito de um leque mais eficiente.

O balé em si foi adorável. Era a primeira vez que a maioria de nós estava vendo.

A volta para casa foi um pouco conturbada. Éramos um grupo de 7 pessoas, cada um querendo voltar pra casa de forma diferente. Eu preferia pegar o metro ali mesmo, descer na rodoviária e pegar um ônibus direto para casa. Outros queriam ir a pé, por 20 minutos, e pegar um ônibus no meio do caminha. Só que não tínhamos garantias de que esse ônibus iria passar. O metro acabou sendo escolhido. Chegamos na rodoviária e, mais uma vez, houve divergência sobre qual ônibus pegar. Havia a opção 1: pegar o ônibus que já estava parado. Esse ônibus nos deixaria um pouco distante de nossas casa, mas já estava ali parado. Opção 2: pegar um outro ônibus, que nem estava no ponto ainda, com o valor da passagem superior, mas que nos deixaria na porta de casa. Vencida a opção 2, lá fomos nós para o ponto.

Passados alguns minutos, o ônibus tinha chegado, mas ficou parado por mais um bom tempo, sem deixar que ninguém entrasse. Ficamos ali fora, esperando, já sem muita paciência, quase nos arrependendo de ter trocado o ônibus quando surge justamente o ônibus que não esperávamos pegar (o da opção de irmos a pé e pegá-lo no meio do caminho). Como ele iria parar mais adiante, ficamos parados, meio que indecisos, quando começamos a correr para tentar pegá-lo. Corremos um bom pedaço e conseguimos alcançar o veículo. As vantagens de pegar esse ônibus foi a passagem mais barata, deixava na porta de casa e não parava na maioria dos pontos.

Faltou luz

Dezembro 2, 2007 por Walder

Ainda há pouco faltou luz. Como já está de noite, não conseguia enxergar nada. Calmamente tateei a mesa do computador em busca do meu celular. Lembrei que o havia deixado na sala. Foi quando senti a caixa fria da máquina digital. Liguei-a para que a luz do visor pudesse me guiar pela casa e peguei meu celular. Aproveitei e liguei para o meu amigo que estava conversando comigo pelo bate-papo. No meio do papo a luz voltou. Os aparelhos domésticos fizeram vários barulhos ao mesmo tempo. Levei um pequeno susto. Foi quando eu lembrei da minha infância.

Eu lembrei da época em que tinha medo do escuro e de ficar sozinho em casa. Eu morava em um sobrado com um imenso corredor para a porta de saída.  O problema desse corredor era o interruptor da luz: ele ficava bem longe da saída. Quando estava sozinho e ia sair à noite, eu ía até a porta, deixava ela escancarada, voltava até o interruptor, apagava e saía correndo. Nessa época meu medo era tão grande que não conseguia sair andando normalmente pela porta de casa. Sempre achava que tinha alguma “coisa” atrás de mim, por isso precisava correr.

Nesse mesmo sobrado tinha uma escada. Havia um imenso portão de ferro vazado, que dava para um corredor até a escada. Subindo a escada tinha outro corredor até a minha casa. Mais uma vez o problema da luz. Às vezes ela estava queimada. As luzes dos postes faziam sombras imensas nos desenhos do portal, que se estendiam pelo corredor. As imagens distorcidas ajudavam no clima de terror que se instauravam na minha mente. O medo ainda era maior porque precisava trancar o portão, com aquelas sombras atrás de mim, esperando que eu me trancasse e não pudesse mais fugir senão passando por elas. Ah como o barulho dos meus passos ecoavam pelo corredor assombrado. E chegar à porta já com a chave em mão, abrí-la e encontrar o corredor da casa escuro. Meu coração pulava. Fechava a porta desesperadamente e continuava a correr para acender a luz.

Como eu era medroso. Hoje eu estou sozinho em casa e não sinto mais que alguma coisa esteja atrás de mim. Nem tenho mais medo de ficar no escuro.

Chuva

Outubro 24, 2007 por Walder

Chuva

Quarta-feira chuvosa… ah seu eu tivesse faltado o trabalho hoje ao invés de ontem.

Se fosse somente a cair dos pingos o problema, mas não. O trem estava circulando com grande atraso, o que ajudou a comprovar a lei de que dois corpos não ocupam o mesmo espaço ao mesmo tempo. Mas eu odeio física, então este comentário não passa de uma piada infame.

Enfim chego na estação central (sim, minha vida é um ciclo de estações de trem, trabalho e péssimo humor e eu prometo mudar para atrair mais público ao meu blog). O local estava alagado e eu tive que usar de estratégia militar para evitar entrar em poças cheias de dejetos. Apesar do grande esforço, não dava para evitar chegar no trabalho com os pés secos.

Com isso chego a algumas conclusões:

1 – odeio tênis All Star;

2 – deveria nevar logo de uma vez. Assim poderíamos ficar em casa;

3 – se chove muito e por muito tempo, logo a temperatura cai;

4 – os restaurantes ficam mais vazios;

5 – baratas passeiam pelos postes.

Fiquei a manhã inteira descalço, com meu tênis cheio de papel para secar as mãos e minhas meias ficaram na sala dos servidores para secare.

Graças a Deus II

Outubro 7, 2007 por Walder

Hoje chamei um amigo para assistirmos Resident Evil. Fomos em um shopping, no município vizinho, onde as salas de cinema possuem um bom sistema de áudio.

Após o término da sessão, por volta das 20h30, saímos do shopping, cruzando o estacionamento, até a saída onde há um ponto de ônibus. Chegamos no ponto e em seguida entramos em um ônibus. Meu amigo queria sentar na parte de trás, onde acho perigoso por causa de assaltos. Expliquei esse meu medo a ele e sugeri que sentássemos mais próximo do motorista.

O motorista seguiu por um caminho diferente do normal, passando por regiões de aspecto nada confiáveis. Mas logo voltamos à estrada principal.

Descemos no ponto final e, apesar de podermos pegar uma outra condução ali mesmo, preferi cruzar o calçadão e pegar o ônibus bem mais adiante, evitando a favela por onde ele passaria. Chegamos no ponto e pouco tempo depois estávamos no ônibus. Mais uma vez procuramos nos sentar nos bancos que ficam no meio do veículo.

Passado alguns minutos, um rapaz cruzou o corredor vindo pela parte de trás, parou ao lado de uma menina, que estava sentada a dois bancos do motorista, e colocou sua mochila na frente dela, abrindo-a. Foi quando percebi o que estava ocorrendo. Virei para o meu amigo e disse “permaneça olhando para o lado de fora do ônibus”. Apesar de eu também estar olhando para o lado de fora, pude perceber que o rapaz estava com uma arma e que tinha partido para abordar uma outra garota que estava logo atrás da primeira. Ele continuou o assalto a uma terceira vítima, que estava no banco ao lado. Neste momento eu tive dois pensamentos. O primeiro foi “ele vai assaltar todos no ônibus” seguido de “o evangélico no trem que repetia ‘Deus, se for sua vontade, serei assaltado esta noite’”. O segundo pensamento foi um pouco inusitado, mas pensei em como realmente é fácil ser egoísta em uma situação destas. O ladrão terminou de pegar os pertences da terceira vítima e foi para a porta de saída. Esperou chegar até o próximo ponto e desceu do ônibus.

Os demais passageiros também acompanharam toda a ação do jovem e logo estavam conversando sobre o ocorrido com as três moças. Apesar da forma como tudo ocorreu, todos pareciam tranquilos, como se toda aquela situação fosse normal. Inclusive as três, que disseram apenas que levaram o celular e nada mais.

Um a um os passageiros foram descendo, voltando para suas vidas corriqueiras com apenas mais uma história para contar aos amigos.

Vacas para a elite ou pobre não tem cultura?

Outubro 7, 2007 por Walder

Vaca na Central do Brasil

Está acontecendo no Rio de Janeiro a exposição de rua Cow Parade. O evento reuniu trabalhos de diversos artistas locais sobre o tema vaca.

Para aqueles que passam pela Zona Sul, Centro e Tijuca terão a oportunidade de conferir de perto simpáticas vaquinhas idealizadas das mais diversas formas.

O chato é que para aqueles que moram em outros municípios  não terão acesso a uma exposição tão inusitada.

Infelizmente, em municípios onde a população de baixa renda é maior, o investimento em cultura é muito pequeno.

Crianças… como podem?

Setembro 29, 2007 por Walder

Finalmente cheguei na estação. Desci do trem e fiquei aguardando na plataforma até que o aglomerado de passageiros fosse diminuindo, sobrando espaço nas escadas para que eu pudesse subir tranqüilamente.  Eu já estava próximo à saída, quando ouvi o grito desesperado de uma mulher: “Minha filha!!! Minha filha!!!”. Virei-me rapidamente para a plataforma e vi a cena: uma menina, por volta de 6 anos, chorando dentro do trem. A porta se fechando. A mãe, do lado de fora, berrava e batia na porta. O trem partindo logo em seguida.

Um rapaz subiu desesperadamente pela escadas, indo em direção à bilheteria, para pedir que alguém na próxima estação resgatasse a criança. Virei-me novamente para a roleta e saí da estação. Enquanto a mãe continuava gritando, aos prantos.

Graças a Deus

Setembro 29, 2007 por Walder

Cheguei na estação de trem e enfrentei a fila para pagar a passagem. Agora que a Supervia aumentou a passagem de R$ 2,00 para R$ 2,10, as filas se tornaram caóticas devido a demora para dar o troco. Olhei para uma das TVs de plasma de 42″ que anunciam os horários das composições e vi que o meu ramal sairia dentro de 6 minutos. Consegui passar rápido pela roleta e aguardei a chegada do trem na plataforma indicada na TV. Como estava com um amigo meu, procurei entrar num dos vagões mais à frente.

Quando as portas do trem se fecharam, um homem levantou e abriu sua Bíblia. Foi quando eu percebi que entrara no terceiro vagão. Eu sabia que nos terceiros vagões existe culto para quem quer ou não ouvir a “palavra de Deus”. Mas na pressa, acabei não percebendo isso. Não sou ateu, mas acho inconveniente ao final da tarde ficar ouvindo gritos  de “aleiluiassss” entre outras palavras que definitivamente não pertencem ao português. Mas o que mais me chamou a atenção foi o depoimento de um deles.

Um homem vestido com roupas sociais, mas com aparência  simples, levantou-se e começou:

- “Eu estava no ônibus e um rapaz sentado ao lado de uma senhora ficou me observando. Ele disse que nada estava acontecendo e arrancou o cordão da senhora. Foi quando outros rapazes apareceram pegando os pertences dos demais passageiros. Eu pensei: ‘Deus, se forSua vontade, eu serei assaltado’. E os rapazes continuaram com o roubo e eu, mais uma vez, pensei:  ‘Deus, se for Sua vontade, eu serei assaltado’. Um dos rapazes mostrou uma arma, e eu pensei: ‘Deus, se for sua vontade, eu serei assaltado’. Um dos rapazes ficou em encarando e eu baixei a cabeça e pensei: ‘Deus, se for sua vontade, eu serei assaltado’. No fim, os rapazes desceram do ônibus e não me assaltaram.”

As pessoas que participavam deste “culto” gritavam: “Aleluiassss” entre outras palavras típicas e eu pensei: “Que filho da puta! Então quer dizer que dane-se as pessoas que foram assaltadas! O que importa é que ele não foi?” Ou seja, ele orou só para ele. Um completo egoísta. Ha!

Não foi um dia comum

Setembro 5, 2007 por Walder

Ontem, pela manhã, lembro de ter pensado em como os dias são similiares. Acordo, vou para o trabalho no mesmo meio de transporte, passo pelas mesmas ruas. Enfim, são similares, mas tem sempre algo diferente. Nem sempre pego o trem no mesmo horário, nem sempre vejo as mesmas pessoas.  Porém, não imaginava que a volta para casa iria quebrar essa pseudo rotina.

No final do dia, fui para a estação de trem. Esperei pela segunda composição, com ar condicionado (um trem raríssimo que existe somente em alguns horários do dia). Entrei no vagão e segui viagem, normalmente. Após 30 minutos de viagem, o trem para em uma das estações e assim permanece por 10 minutos. Foi quando a voz do maquinista, ruidosa por causa das instalações precárias dos auto falantes, anunciou que o trem permaneceria assim, aguardando novas ordens. Tudo bem, atrasos ocorrem.  Melhor esperar do que correr o risco de um acidente, como ocorreu em outra composição dias desses.  Após mais alguns minutos o trem segue viagem.

Na estação seguinte, uma menina que estava em pé faz uma ligação:

- O quê? Tiroteio na estação?! Humm… Ok.

Ela desliga o celular de desce do trem.

Fiquei observando a saída dela enquanto tentava montar uma idéia do que poderia ter sido a conversa: “tiroteio em uma das estações seguintes por causa do tráfico? Isso explica a parada na estação anterior. Mas espera um minuto! Se tem tiroteio, mesmo que eu desça aqui, os ônibus vão passar pelo mesmo local do tiroteio. E agora?”. A confusão estava acontecendo há 4 estações dali. Resolvi permanecer no trem.

Chegando na terceira estação, o maquinista não prosseguiu viagem. Os passageiros estavam um pouco apreensivos. Mais pelo fato da demora para chegar em casa do que com tiroteio em si. Mas confesso que eu estava nervoso. A estação seguinte era muito próxima de onde estávamos. Se os traficantes resolvessem fugir pelos trilhos, não tardaria para que a estação fosse invadida. Um frio subiu pela minha espinha. Foi quando anunciaram, agora pelos auto falantes da estação, que o trem retornaria para a Central, por “ordens superiores”.

E lá estava eu, retornando para o local onde estava, pensando em como os dias não são parecidos.

Diário de Walbert

Agosto 29, 2007 por Walder

Apesar de trabalhar como desenvolvedor web, presto serviço de suporte na empresa onde trabalho. Lá, computador é sinônimo de status, nada mais.

Sara: – Ontem houve uma tempestade de raios e meu no-break parou de funcionar. Agora não consigo ligar meu computador.

Walbert: – Já tentou ligar o seu equipamento diretamente no estabilizador?

Sara: – Sim. Mesmo assim não está ligando.

Walbert: – Já tentou ligar o estabilizador diretamente na tomada ao invés de estar no no-break?

Sara: – Não.

Reunião com a diretora durona Rose.

Rose: – Ana, esse documento não poderia ter sido alterado sem que alguém tivesse solicitado! Entendeu, Ana?

- Mas alguém pediu.

Rose: – Ana, e onde está solicitação? Você pertence à uma área onde não se pode perder essas informações! Ana, isso é muito importante! Você consegue entender a gravidade do assunto, Ana?

- Meu nome é Mary.

Rose: – Tudo bem, Ana. Mas você entendeu?

Toda a culpa será da informática.

Walbert: – Pronto. Agora é só sal…

Escuridão total.

Walbert: – …var…

Dez minutos depois, ainda sem luz, entra o diretor:

John John: – Por que estamos sem luz?! Sabe quando vai voltar?! Já procuraram saber?!

Manhãs

Agosto 21, 2007 por Walder

É incrível como ainda não me acostumei a acordar cedo.

Quando o celular emite o mesmo som enjoado, eu retomo o controle da minha consciência, e é neste momento que começa o sofrimento. A primeira voz me lembra que tenho obrigações com o meu trabalho e que preciso ser responsável com o horário. A segunda diz que é impossível trabalhar com a mente cansada e que deveria respeitar o descanso. Eis que surge a terceira e tenta conciliar as duas primeiras dizendo que eu poderia continuar deitado por mais alguns minutos. A terceira é sempre a que me convence e logo mudo o celular para o status de ’soneca’.

Após 5 minutos, o som ainda mais enervante do celular soa novamente. E, como se já não houvesse acontecido, o embate das vozes tem início. Desta vez a terceira não consegue mais ter razão visto que a primeira insiste que quanto mais cedo eu chegar no trabalho, terminarei logo, e terei mais tempo para outros assuntos. A segunda demonstra o quanto eu fico cansado ao acordar tão cedo e relembra exemplos de mau humor exacerbado que predomina nestes dias. A terceira, com seu tom ameno e sem convicção, só ajuda a tornar a discussão ainda mais barulhenta. Os ânimos das vozes se tornam insuportáveis e logo perco meu sono.

E assim eu acordo todas as manhãs desejando estar em outro emprego.